Tuesday

diálogo

para luiz arthur nunes


a: você é meu companheiro.
b: hein?
a: você é meu companheiro, eu disse.
b: o quê?
a: eu disse que você é meu companheiro.
b: o que é que você quer dizer com isso?
a: eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
b: tem alguma coisa atrás, eu sinto.
a: não. não tem nada. deixa de ser paranóico.
b: não é disso que estou falando.
a: você está falando do quê, então?
b: eu estou falando disso que você falou agora.
a: ah, sei. que eu sou teu companheiro.
b: não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
a: você também sente?
b: o quê?
a: que você é meu companheiro?
b: não me confunda. tem alguma coisa atrás, eu sei.
a: atrás do companheiro?
b: é.
a: não.
b: você não sente?
a: que você é meu companheiro? sinto, sim. claro que eu sinto. e você, não?
b: não. não é isso. não é assim.
a: você não quer que seja isso assim?
b: não é que eu não queira: é que não é.
a: não me confunda, por favor, não me confunda. no começo era claro.
b: agora não?
a: agora sim. você quer?
b: o quê?
a: ser meu companheiro.
b: ser teu companheiro?
a: é.
b: companheiro?
a: sim.
b: eu não sei. por favor, não me confunda. no começo era claro. tem alguma coisa atrás, você não vê?
a: eu vejo. eu quero.
b: o quê?
a: que você seja meu companheiro.
b: hein?
a: eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
b: o quê?
a: eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
b: você disse?
a: eu disse?
b: não. não foi assim: eu disse.
a: o quê?
b: você é meu companheiro.
a: hein?
(ad infinitum)

morangos mofados, caio fernando abreu

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